Robert Downey Jr. ri maliciosamente quando ele é lembrado o quão citavelmente cínico seu personagem jurídico Hank Palmer é em O Juiz, que abre o Festival Internacional de Toronto na noite de gala no dia 4 de setembro.

“Todo mundo quer Atticus Finch,” diz Palmer. “até que haja uma prostitua morta na hidromassagem.”

“Ha, ha!” Downey ri ao telefone, direto de Los Angeles. “Eu acho que vamos fazer muitos adesivos com essa frase, então você está no lucro.”

Isso certamente se encaixa na imagem que a maioria das pessoas tem de Downey, 49. Ele é conhecido por sua língua afiada, dentro e fora da tela, seja quando ele está interpretando um super-herói espertinho em Homem de Ferro e Os Vingadores, usando sarcasmo como em Sherlock Holmes, seja trocando farpas com outras celebridades de Hollywood no Oscar ou Globo de Ouro.

Considerando a ambição de Downey para O Juiz, uma estreia mundial no TIFF cai em uma direção diferente. Ele quer mostrar como até o menos provável dos caras podem se tornar alguém renomado, se houver vontade e as estrelas se alinharem. “Minha maior esperança para O Juiz,” ele diz. “é que ele pode representar a salvação de Hank na mais improvável das circunstâncias.”

Um advogado de Chicago sem escrúpulos, Hank Palmer defenderá qualquer criminoso que tenha uma carteira gorda. “As pessoas inocentes não podem me pagar.”

Ele é a antítese de Atticus Finch, um nobre advogado de O sol é para todos (To Kill a Mockingbird), um filme que ressoa dentro do drama O Juiz – Robert Duvall estava nesse clássico jurídico de 1962 e agora é a estrela título de O Juiz, interpretando o distante Juiz Joseph Palmer.

No entanto, quando Hank se encontra de volta em sua cidade natal em Indiana para defender seu pai em uma acusação de assassinato – o pai é acusado de atropelar um ex-réu desprezado – ele é forçado a enfrentar não só os velhos fantasmas da família, mas também os espíritos malignos de sua atual existência.

Interpretar um personagem antipático não é novidade para Downey, mas onde você leva esses personagens é o que interessa a ele.

“Eu acho que quase todo mundo é, em algum nível, um personagem antipático,” ele reflete. “Se você realmente o conhecesse, você entenderia. Para mim, muitas vezes, é apenas uma exploração da mitologia do ser. Eu tendo a canalizar meus colegas e influências, figuras históricas, conhecidos e desconhecidos para esses grupos e subgrupos. Eu adoro qualquer história que me dê alguma compreensão e que me coloque realmente no lugar de alguém, especialmente se houver um bom tema. (O Juiz tem) pais, filhos, leis e salvação.”

Aí está essa palavra “salvação” de novo. E isso, obviamente, soa verdadeiro para um ator que cometeu erros em boa parte de sua vida e carreira e desventuras na reabilitação e até prisão, ainda que ele esteja consciente das várias “segundas chances” que já teve.

Ele considera sua viagem para Toronto para O Juiz como um regresso à sorte, de várias maneiras.

“Ficamos muito honrados,” ele diz de seu filme ser selecionado como o filme de estreia do festival. “A grande coisa é que a maior audiência de amantes do cinema proválvemente está em Toronto. Assim, o fato de sermos chamados para dar a largada ao festival, foi muito satisfatório. É um grande voto de confiança e estamos realmente orgulhosos.”

“Eu acho que a última vez que eu estive lá foi com Beijos e Tiros e eu só me lembro de mim e ‘da patroa’ sendo parte dessa grande coisa que era na verdade apenas uma pequena nota na lateral.

“Nos conhecemos em Montreal, então qualquer coisa que tenha a ver com aquele lugar ao norte de nossas fronteiras, temos um sentimento distorcido sobre o assunto.”

Robert e Susan também estão tendo um “sentimento distorcido” em relação a uma adição antecipada à família: novembro vai lhes trazer uma filha, uma irmã para dois irmãos mais velhos.

“É muito louco,” diz sobre ter sua primeira filha 6 meses antes de completar 50 anos. “Ela é de verdade agora. Ela não tem nome ainda, mas, meu Deus, daqui a pouco ela vai estar ligada e barulhenta.”

O Juiz também reúne Downey com Duvall, um ator que ele admira muito. Eles já apareceram juntos em dois filmes anteriores: Até Que a Morte Nos Separe (The Gingerbread Man) e Bem-vindo ao Jogo (Lucky You), mas esses eram elencos de conjunto e seus caminhos mal se cruzaram.

“Eu estive periférico com ele algumas vezes. Eu nunca deixaria qualquer lugar onde ele passou sem demonstrar meus respeitos,” disse Downey. “Ele vem sendo uma daquelas figuras iminentes. Dobkin disse quando ele estava formando essa ideia, quando estávamos desenvolvendo o filme, que o juiz deve ser uma ‘montanha’ que é aparentemente impossível que Hank consiga escalar. Com sua estatura, Bobby fez com que fosse fácil.”

Será que Robert sentiu que ele tinha que acelerar seu jogo para conseguir um mano a mano com Duvall?

“Oh, meu Deus, por favor! Eu não quero dizer que isso é uma progressão natural de interpretar super-heróis e assistentes da inteligência Vitoriana, mas eu sinto, de algum modo, que tudo em que eu estive nos últimos anos foi útil na hora de entrar em algo como isso. As temáticas são maiores em cada pedaço nesse, em um filme sem gêneros.”

Downey interpretou advogados muitas vezes em sua carreira, vezes o suficiente para que ele não tenha tido certeza se devia ou não fazer isso outra vez, no início. Foi sua mulher Susan – parte de sua produtora Team Downey – que insistiu que Hank Palmer era um papel que ele tinha de fazer.

E mais uma vez, há um sentimento de ser levado em um ciclo por isso. Downey recorda que o primeiro filme que realmente teve um impressão nele enquanto crescia foi O Veredito, de 1982, drama estrelado por Paul Newman, como um advogado na desgraça que precisava de redenção. O papel deu a Newman uma indicação ao Oscar, um pouco de história que Downey ficaria muito feliz em ver se repetindo.

“Eu lembro de ter visto O Veredito no cinema e lembro de como as pessoas deixaram aquele ar de exibição sobre Paul Newman. Não apenas o corpo de seu trabalho, mas como tudo aquilo meio que o direcionou àquele momento definitivo e interpretar alguém que não seja aquele cara que você sabe que ele é. E como ele foi tão pressionado por Sidney e como houveram tantas reclamações dele indo a um lugar que era totalmente desconfortável. Em última análise, O Veredito é sobre ele (Newman).”

E talvez O Juiz seja um pouco sobre Robert Downey Jr.? Existe uma fala engraçada no final do filme, quando sua ex-namorada do colegial, interpretada por Vera Farmiga, faz referência a “essa coisa de vocabulário vômito que você faz,” uma fala que divertidamente bate na porta da casa de Downey.

Ele é conhecido hoje por ser tagarela, mas no início de sua carreira ele era famoso por interpretar o comediante mudo Charlie Chaplin em Chaplin, a cinebiografia de 1992 que deu a Downey sua primeira indicação ao Oscar (a segunda foi pela comédia Trovão Tropical e 2008).

“Eu me perguntava, será que realmente é isso com que Hank se parece? Será esse ‘Hank’?” o ator resmunga sobre a piada do “vocabulário vômito”.

“E nesse ponto, honestamente, mesmo que o filme seja um conjunto fictício de circunstâncias e personagens e temáticas, há algo sobre ele que ressoa comigo.

“Eu, obviamente, não sou um advogado, mas eu interpretei um muitas vezes, e eu perguntei. ‘Espera aí, de quem nós estamos falando?’ Eu estava perguntando ao diretor, aos roteiristas e minha esposa de longa-e-sofrida data.

“Eles disseram, ‘Não, não, esse é o Hank – e é vocês dois!’ Eu acho que o mais legal foi o homem e sua namorada do colegial às margens de um lago com sua salvação em linha, e a coisa mais linda sobre essa cena é que o passado surge de uma forma que é brilhantemente concebido.”

Assim é o contexto mais amplo de O Juiz para Downey, que em última análise é mais do que a salvação. Trata-se de um homem querendo encontrar um lugar dentro de sua família novamente.

“Isso sempre me surpreende quando, em meio de uma crise, você pode dizer que há amor na família se eles estiverem aptos a rir, se auto-depreciar de alguma forma.” Downey diz. “Eles podem reconhecer que a vida é severa e que estamos nisso juntos, então o que é que vamos fazer?” ele finaliza.

 

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