Entrevista publicada em 31 de março. Revista Serafina – Folha de S. Paulo.

Por Adriana Küchler | Serafina

Robert Downey Jr. faz das entrevistas mix de “stand-up” com palestra de autoajuda

“Sou a melhor pessoa que você pode ter para promover o seu filme. Principalmente se eu estiver nele”. Todos riem quando Robert Downey Jr. fala, mesmo que ele não esteja fazendo piada. Ele gosta da atenção. “Eu vivo para isso.”

O assunto dele agora é “Homem de Ferro 3″, novo longa da franquia de sucesso que transformou o antigo ator problema em garantia de boas bilheterias, e que entra em cartaz no próximo dia 26.

Aquela era a primeira entrevista da maratona de divulgação programada pelo estúdio. Ele tinha 90 dias pela frente, falando e posando para fotos. Mas não parecia se importar. Aliás, parecia estar se alimentando de tanta atenção.

Os dois primeiros “Homem de Ferro”, lançados em 2008 e 2010, tiveram faturamento conjunto de R$ 2,4 bilhões e “Os Vingadores” (2012), reunião de super-heróis da Marvel com participação de Robert na armadura de lata, arrecadou R$ 3 bilhões e se tornou a terceira maior bilheteria da história. A série “Sherlock Holmes”, sua segunda franquia, com dois filmes lançados em 2009 e 2011, também é campeã de audiência global.

Por conta do faturamento dos filmes, o salário dele estourou: de R$ 1 milhão no primeiro “Homem de Ferro” para R$ 100 milhões em “Os Vingadores”. A Forbes o considerou o maior arrecadador do cinema em 2012.

Nesse terceiro filme, o personagem de Robert, Tony Stark, o Homem de Ferro, vai enfrentar o vilão Mandarim, interpretado por Ben Kingsley, além de lidar com dificuldades com a armadura superpoderosa, que o deixa na mão.

A figura do bilionário Tony Stark, brilhante, irônico e sedutor, mas arrogante e nada modesto, costuma se confundir com a de Robert. Menos no figurino.

O ator faz um estilo eclético, mas nunca descuidado. Para encontrar a imprensa internacional, opta por um tricô creme por cima de uma camiseta branca manchada de rosa, com calça de veludo e botas cinzas.

CAIXA PRETA

O cabelo espetado para cima tira o foco dos pelos brancos que começam a aparecer na sua barba e das linhas de expressão que marcam sua testa. A entrevista é performática.

Ele faz caretas, cruza os braços, dá soquinhos no ar. Todos se divertem. O que pode parecer antipático em outros, nele é só charme.

Nas mãos, e há muitos anos, ele carrega uma mala preta, dura, que mais parece uma caixa de câmera fotográfica subaquática. Pergunto o que tem dentro. Ele abre a mala, compartimentada e organizada, e começa a listar:

-Ervas, chiclete de nicotina, continuo sem fumar, óculos escuros, lenços umedecidos…

Há quatro anos, quando apareceu em Serafina pela primeira vez, o ator trazia, no seu “kit salvação”, chaves, um iPod, um Blackberry que ganhou de Jude Law, um charuto e um saco preto e misterioso.

Dessa vez, explica assim a onipresença da mala: “As garotas me entendem. Vocês não se sentem sempre como se estivessem pescando em suas bolsas, remexendo um monte de bolas de bingo sem nunca encontrar o que procuram?”

Todas concordam. “Odeio isso”, ele continua. Aos 47 anos, o ex-junkie, chegado em crack, cocaína, heroína, prostitutas e frequentador de prisões e “rehabs”, e atual superstar, Robert
Downey Jr. só é dependente da sua caixa preta. Continua sendo um obsessivo, mas tem obsessões mais saudáveis.

Minutos antes da entrevista, o diretor Shane Black, que já tinha trabalhado com ele em “Beijos e Tiros” (2005), havia descrito o ator como um caubói, um verdadeiro herói americano. “Ele disse isso?”, pergunta Robert.

“Não, não me sinto um herói. Mas é importante que o diretor diga esse tipo de coisa. Faz bem pro nosso relacionamento.” Todos riem.

AUTOAJUDA

Digo a ele que Shane o chamou de “gênio perdido, uma criança por dentro”. “Ele acha que engoli uma criança? Adoro as coisas que ele fala”. Diz também que dá muitos palpites no roteiro de “Homem de Ferro”.

“Eu digo: ‘Aqui, eu preciso falar algo. Nessa parte falta alguma coisa. Isso não deveria ser tão engraçado.’ Caso vocês não tenham notado, gosto muito de falar!”.

É óbvio que Robert gosta de falar. As frases começam com um assunto e caminham livremente por outros, muitas vezes sem pé nem cabeça. Começa a responder a uma pergunta e logo está filosofando sobre algo que não necessariamente tem a ver com o tema. Insere frases no meio da conversa como se tentasse ensinar as lições que aprendeu pela vida.

E mistura as lições com piadas como se estrelasse uma comédia “stand-up” de autoaju
da: “Eu realmente acredito que, se você não estiver do seu lado, ninguém mais vai estar. Se você não confiar em você, porque o público ou um estúdio deveria confiar?”, “No momento em que você determina que a causa do seu sofrimento está fora de você, você se torna a causa do sofrimento de outras pessoas”.

E ele começa a atuar no mundo da autoajuda. Em fevereiro, apresentou o Prêmio Experiência, Força e Esperança, que promove tratamentos alternativos, como o humor, para pessoas viciadas em álcool, drogas ou comportamentos autodestrutivos.

Indagado sobre porque ainda não aceitou fazer o quarto “Homem de Ferro”, diz que aprendeu com seu personagem Tony Stark como é difícil arrastar uma armadura inútil e sem vida por aí.

LIÇÃO DE HUMILDADE

“É terrível ver um ator repetindo um papel enquanto o público diz: ‘Por favor, não faça mais isso’. Não passo por cima da minha percepção. Se sentir que não sou mais bem-vindo pelo público, não quero seguir interpretando Tony Stark”.

O que não significa que ficaria confortável ao ver um outro ator vestir a armadura em seu lugar.

“É, o ego… O ego tem que ser esmagado. Se isso acontecesse [alguém substituí-lo], provavelmente seria a melhor coisa do mundo para mim. Mas eu odeio ver o ego das pessoas sofrer, odeio quando as pessoas têm que aprender a ser humildes. Tenho uma boa quantidade de humildade. No banco” (risos).

Robert também tem uma família renovada: dois filhos, Indio, 19, e Exton, 1, e a segunda mulher, Susan, com quem é casado há sete anos e sua sócia na produtora Team Downey.

Susan também tem crédito por ter tirado Robert da lama. Mas não foi só ela: a terapia, o kung fu, a meditação, o “rehab” e a ioga também foram importantes. São ecléticas as crenças desse “judeu-budista”.

Quando fazia os testes para o primeiro “Homem de Ferro”, ele montou em casa um “altar para a possibilidade do eu”, com objetos como uma foto do herói e uma espécie de varinha de condão.

Pergunto se ele mantém esse altar. “Não, já funcionou”, ele responde, pragmático. “Hoje minha vida espiritual tem muito mais a ver com manutenção do que com conquistas. E eu te garanto que a manutenção é três vezes mais difícil do que a conquista”.

Robert se levanta e segura firme a maleta. Ela tem a ver com a manutenção. A maratona de entrevistas, com as conquistas. “Faltam 89 dias”, ele diz. Todos riem.